E o Ateliê aqui do Alameda1976 faz a sua estréia no ano de 2011.
E o faz com a visita de Alexandre Carlos Aguiar que nos agracia com o conto a seguir:
O último dia do caçador
O dia do caçador geralmente começava bem cedinho e era uma promessa de emoções sempre novas. Naquele início da manhã chovia. E chovia muito. O velho Smilodon arrastava-se pela abertura da toca, em meio a algumas pequenas poças de água que iam se formando, até conseguir apoiar-se nas patas dianteiras, tentando diminuir o esforço na pata traseira esquerda. Já não doía tanto quanto há algumas semanas, mas ele ainda tinha dificuldades em apoiar-se nela. Percebeu que, de onde estava, uma pequena presa corria lépida pela planície.
Os dias sem comer algo substancioso elevavam cada vez mais a sua fome. O torpor característico pela falta de alimentos ameaçava sua visão e, cambaleante, ele levantava a cabeça na tentativa de farejar algo palatável. Os músculos já haviam perdido a robustez de outrora, restando apenas uma pele sem brilho e elástica a cobrir-lhe os ossos pontudos. À imponência do jovem do passado restava tão-somente um esqueleto ambulante, resistente ao fim que se aproximava, portando ainda, como salvaguarda dos tempos gloriosos, os proeminentes caninos já amarelados.
O último combate que travara com aquele jovem macho impusera uma queda espetacular pela ravina, premiando-o com uma fratura na parte superior do fêmur, que o deixou imóvel por dias no fundo do precipício, sedento e faminto.
Acompanhar os rastros do pequeno roedor, agora, no meio do capoeirão, através da planície larga e por entre as rochas era quase uma brincadeira, não exigindo uma arte elaborada. E era tudo o que podia fazer, uma vez que seu corpo não o ajudava mais. Os ombros e parte do lado esquerdo doíam muito e cada escapada para ir buscar comida era tida como uma tortura para o velho caçador. E essas escapadas eram, em sua maioria, frustrantes.
Certa vez, numa tarde ensolarada, quando descansava a cabeça por sobre as patas dianteiras, um pequeno lagarto passou vagarosamente próximo aos seus dentões, entretendo-se, em seguida, a farejar aquele animal enorme, velho e cansado, adormecido às portas de sua toca. O Smilodon, surpreendido com a ousadia daquele bicho, tentou abatê-lo com uma de suas fortes patadas, mas teve que desistir tão logo iniciara o movimento, pois o flanco esquerdo mais uma vez acusava a dor. Estas lembranças sempre o atormentavam.
Mantinha, naquele instante fugaz, o rosto enfiado no capim, o focinho quase colado à terra, o olhar atento preso ao solo. Parecia olhar para o nada. Engano. Ele observava cada detalhe da vida do pequenino roedor, sua respiração, sua pulsação, seu piscar de olhos. Fazia uma hora, ou mais, que persistia assim, tenso. Quase não se movia agora. E não deveria. Um sopro mais forte da respiração poderia afastar o objeto de sua contemplação. Então ele parou por completo, imobilizando-se, pacientemente. Ainda não perdera o instinto de caçador oportunista e vigilante, mesmo que o corpo já não o ajudasse.
A chuva, contudo, incomodava. Os pingos gelados penetravam em sua pelagem e entravam em contato com a pele que, inadvertidamente começava a tremer para afastar o frio. Ele precisava ser rápido, antes que o próprio corpo denunciasse o sofrimento.
Ao longe, o cheiro das fêmeas impregnou suas narinas com o delicioso perfume do amor, pois, àquela época do ano, algumas já estavam entrando no cio. As disputas acaloradas que travara por seu território ficaram num passado distante. E esquecido por aqueles que outrora o veneravam como o macho mais imponente daquele bando. Por verões a fio dominou os destinos do pequeno grupo de dentes-de-sabre ao sul do rio. O auge de seu reinado foi quando impuseram uma caçada vigorosa e elaborada a uma enorme preguiça, talvez das mais ferozes que o grupo havia encontrado. Depois de ela haver esfolado e trucidado uma das fêmeas incautas, as outras, numa arriscada estratégia encurralaram a grande preguiça num dos cantos próximo à ravina. Não querendo cair no precipício, ela partiu para cima de suas caçadoras com toda a fúria, mas foi uma tentativa desesperada, pois todas as fêmeas, em conjunto, pularam sobre seu dorso e a imobilizaram. Nesse instante, o grande macho Smilodon, vagarosamente, como se num ritual pré-determinado, aproximou-se do corpo do animal, que arfava e resfolegava, encostou a boca no pescoço da preguiça e cravou seus caninos num golpe certeiro e fatal, dilacerando os grandes vasos sangüíneos que irrigavam aquela região do corpo da presa. Todas as fêmeas e alguns pequenos machos e filhotes aguardavam os estertores finais de morte da grande preguiça e, assim, iniciarem seu banquete.
Contudo, algo não estava indo como seria o esperado. Ele, o grande macho, continuou preso ao pescoço da preguiça e foi, lentamente, arrastando o monte de carne, que ainda se debatia, para dentro de sua toca. As companheiras, inconformadas, começaram a rugir e vociferar ameaças, indignadas que estavam com a atitude do grande macho, que passou alguns dias a se banquetear com aquela iguaria.
Enquanto os cheiros delatavam coisas do passado ao caçador, a pequena caça mantinha-se impassível captando pequenas sementes espalhadas pelo chão. Mal sabia que às suas costas o espreitava um grande animal, pronto a lhe abater e consumir como repasto naquela manhã chuvosa e fria. Seria a primeira refeição nutritiva que o predador faria após muitas semanas em quase jejum. E ele estava ansioso.
Naquele momento, o único barulho que se ouvia era o de gotas de chuva caindo no chão duro, ou por sobre a relva rasteira. Ou ainda, ao fundo, havia o marulhar de pequenos regatos que despencavam pela ravina abaixo. E nada mais. O grande Smilodon permaneceu estático, sem esboçar qualquer reação. Nem mesmo as frias gotas de chuva o incomodavam agora. Pelo menos, ele fazia esforço para isso.
Por seu turno, o pequeno roedor também se acomodou no local onde estava, roendo pacientemente os grãos que levava à boca. A concentração de ambos em suas atividades era total e o momento do golpe certeiro era iminente para o caçador. Ele suspendeu a respiração, apertou os olhos ante a dor que ameaçava chegar, levantou a pata dianteira e…
Foi então que ouviu outro som. Um som familiar, muito conhecido em sua vida, que ressoou pelo lugar. Rapidamente o roedor ergueu assustado a cabecinha, largou suas sementes e saiu em disparada, perdendo-se na relva da planície. O caçador soltou um rugido forte, feroz, como se toda a sua força, todas as suas esperanças em fazer uma refeição, a concentração despendida e a decepção pela perda fossem canalizadas para a sua garganta. Ao olhar para trás viu três pequenos filhotes que haviam se desgarrado do bando e começavam a importunar o velho e solitário caçador. Um deles chegou a pular em suas costas e passou a mordiscar sua musculatura magra, para depois morder e lamber sua orelha, como se aquilo fosse um brinquedo diferente.
Se a situação ocorresse em outros tempos, o velho Smilodon teria dado uma de suas possantes patadas nos fedelhos, despachando-os para bem longe dali. Mas também, nos velhos tempos não estaria caçando pequenos roedores àquela hora da manhã.
Agora era o fim! O velho caçador atravessou o comprido caminho, de dor e humilhação, desde a planície até a entrada de sua toca. Olhou os pedaços de ossos que jaziam inertes no fundo da gruta e estremeceu. Eram resquícios dos faustos banquetes que tivera e que agora pouca nutrição ofereciam. Não podiam dar o que ele precisava. Serviam apenas para roçar entre os dentes e enganar as dores da fome e da solidão. E a solidão pesava fundo.
Ele caminhou devagar, como que medindo os passos até o interior da gruta, suportando uma dor já companheira, embora cruel. Entrava agora em agonia. Tinha a sensação estranha de que não era mais importante, para o bando e para ele mesmo. Ficou assim, parado, por longas horas, com o coração acelerado e a respiração ofegante. Passo a passo o torpor da fome fazia com que sua visão fosse se tornando embaçada. Seu corpo foi ficando pesado, não obstante estive magro demais. Agora era só uma questão de tempo. E fazia tempo que estava com a vida assim, por um fio, naquela planície desolada ao sul do rio.
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Sobre o autor:
O Alexandre é natural de Florianópolis, um legítimo manezinho da ilha e avaiano “desde que Cabral começou a andar“, como ele afirma em seu blog. Inclusive é lá que ele tece as suas críticas sobre o time da ilha. Quer conferir? Passa lá no Força Azurra!