Já eram seis horas da tarde, quando Evanylson se aproximou do quiosque para assistir a partida entre o Internacional e o Botafogo. Claro que trazia consigo a caixa de dominó.
Perguntou se eu queria jogar e foi logo abrindo a caixa. Sem tempo de eu responder, junto com Nelson Rodrigues chegam os cantores e compositores Noel Rosa e Pixinguinha.
Enquanto se aproximavam Garrincha, Armando Nogueira e o grande goleiro Barbosa, Pixinguinha, acompanhado por Noel, começou a cantar:
Vai começar o futebol, pois é, / Com muita garra e emoção / São onze de cá, onze de lá /E o bate-bola do meu coração / É a bola, é a bola, é a bola, / É a bola e o gol! / Numa jogada emocionante / O nosso time venceu por um a zero / E a torcida vibrou / Vamos lembrar / A velha história desse esporte / Começou na Inglaterra / E foi parar no Japão / Habilidade, tiro cruzado, / Mete a cabeça, toca de lado, / Não vale é pegar com a mão / E o mundo inteiro / Se encantou com esta arte / Equilíbrio e malícia / Sorte e azar também / Deslocamento em profundidade / Pontaria / Na hora da conclusão / Meio-de-campo organizou / E vem a zaga rebater / Bate, rebate, é de primeira / Ninguém quer tomar um gol / É coisa séria, é brincadeira / Bola vai e volta / Vem brilhando no ar / E se o juiz apita errado / É que a coisa fica feia / Coitada da sua mãe / Mesmo sendo uma santa / Cai na boca do povão / Pode ter até bolacha / Pontapé, empurrão / Só depois de uma ducha fria / É que se aperta a mão Ou não! / Vai começar… / Aos quarenta do segundo tempo / O jogo ainda é zero a zero / Todo time quer ser campeão / Tá lá um corpo estendido no chão / São os minutos finais / Vai ter desconto / Mas, numa jogada genial / Aproveitando o lateral / Um cruzamento que veio de trás / Foi quando alguém chegou / Meteu a bola na gaveta / E comemorou[i]
Armando Nogueira (AN): Depois dessa aula de futebol, que pode ter sido até um prenúncio do resultado do jogo, vamos fazer nossas apostas de placar?
Pixinguinha (PI): Um a zero para o Botafogo.
Noel Rosa (NR): Zero a zero.
Garrincha (GA): Dois a zero para o Fogão.
Nelson Rodrigues (NR): Dois a um para o Internacional.
Barbosa (BA): Um a um.
Evanylson (EV): Dois a zero para o Internacional.
AN: Três a um para o Inter.
Formadas as duplas do dominó – Evanylson e Armando Nogueira contra Nelson Rodrigues e Barbosa, a bola começou a rolar no Beira Rio. E o papo começa a rolar no mesa quadrada.
EV: Barbosa ainda guardas mágoas pelo que ocorreu em 1950?
BA: Não guardo mágoa não. Mas eu podia não ter sofrido aquele gol do Ghiggia, né! Assim seria um herói.
NR: Herói de quem Barbosa? “O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.” Basta ver as figuras que vão eleger em outubro!
AN: É verdade, o brasileiro não sabe valorizar o seu herói do futebol. Veja o que o Barcelona fez ao Ronaldinho Gaúcho.
PI: Isso no Brasil não existe. Nem no futebol e nem na música.
BA: Mas se eu pego aquela bola … Fui tentar agir por instinto …
GA: Se tu pegas aquela bola o Brasil já seria Hexa.
AN: E quem sabe o futebol brasileiro seria outro. Mas o que passou é passado. E foste um goleiro brilhante e a torcida vascaína te idolatra!
BA: Falando nisso, quanto é que está o jogo do Vasco?
Noel aproveitou e passou a cantarolar:
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça / Um guardanapo e um copo d’água bem gelada / Feche a porta da direita com muito cuidado / Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol / Vá perguntar ao seu freguês do lado / Qual foi o resultado do fute..bol / Se você ficar limpando a mesa / Não me levanto nem pago a despesa / Vá pedir ao seu patrão / Uma caneta, um tinteiro, / Um envelope e um cartão, / Não se esqueça de me dar palitos / E um cigarro pra espantar mosquitos / Vá dizer ao charuteiro / Que me empreste umas revistas, / Um isqueiro e um cinzeiro / Seu garçom faça o favor de me trazer depressa… / Telefone ao menos uma vez / Para três quatro quatro três três três / E ordene ao seu Osório / Que me mande um guarda-chuva / Aqui pro nosso escritório / Seu garçom me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro, / Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente / Seu garçom faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça / Um guardanapo e um copo d’água bem gelada / Feche a porta da direita com muito cuidado / Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol / Vá perguntar ao seu freguês do lado / Qual foi o resultado do fute..bol[ii]
EV: Tá zero a zero.
BA: E esse negócio de estádio para o Corinthians?
NR: Cem anos e não tem estádio. Que diz ter uma das maiores torcidas do Brasil. Só mostra a sacanagem que é o futebol brasileiro.
AN: Sacanagem é o que vão fazer com o dinheiro do brasileiro.
EV: Gol do Inter.
GA: Não tava impedido não?
NR: Menos, Mané. Menos.
AN: Mas com tantos estádios em São Paulo, construir um novo somente para a Copa do Mundo e para que o Corinthians possa ter um estádio, parece ser desperdício de dinheiro. Não que o Corinthians não deva ter seu estádio. Mas por que razão ser esse o da Copa e não o Morumbi ou o Estádio que o Palmeiras vai fazer?
NR: Tem coisas, que só vamos saber quando o Ricardo pular para o lado de cá, e olhe lá!
EV: Só para constar que Pixinguinha, Noel e Garrincha já ficaram fora do nosso bolão depois do gol do Inter.
GA: Barbosa foram quantos títulos que conquistaste pelo Vasco mesmo?
BA: 10 títulos, entre cariocas, rio-são paulo e Sul-americano de campeões.
NR: Por isso não precisas esperar nada do povo brasileiro.
AN: Foste um goleiro excepcional. “A criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Eras um goleiro magistral e fazias milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais via o lance, mais o absolvia”.
EV: E para a alegria do Barbosa. Gol do Vasco. E termina o primeiro tempo no Beira Rio. Canta uma para nós aí, Noel?
NR: Deixa de arrastar o teu tamanco / Pois tamanco nunca foi sandália / E tira do pescoço o lenço branco Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha / Com chapéu do lado deste rata / Da polícia quero que escapes / Fazendo um samba-canção / Já te dei papel e lápis / Arranja um amor e um violão / Malandro é palavra derrotista / Que só serve pra tirar / Todo o valor do sambista / Proponho ao povo civilizado / Não te chamar de malandro / E sim de rapaz folgado[iii].
EV: Barbosa, o Cruzeiro empatou ao final do primeiro tempo.
BA: Ainda dá tempo para o Vasco vencer.
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