Não existem motivos para cometer o suicídio, porém ontem eu os tive.
Assim começa esta carta, o detalhe final, que pode esclarecer o final da vida de Juan Auschwitz.
No presente, não mais no passado, nem tampouco no futuro, esta idéia me veio no presente. Acredito que fosse isso. A impossibilidade de viver, saber que a morte baterá em minha porta em pouco tempo, acho que me fez pensar desta maneira.
Numa revista leio a reportagem de um rapaz que cometeu o suicídio porque tinha um ciúme enorme pela sua noiva. Será que esta não poderia ser a saída para minha vida, ou a melhor saída da minha vida.
Não sei! Não creio! Anos de prazer e degustação daquele que nunca crê. O vinho quente das mulheres mais belas me alimentaram por toda a minha vida, curta e vivida, que se transformaram em tempo sem medida, sem espaço temporal.
Após viagens alucinantes, todas as noites deslumbrantes, bailes, festas, sarais, serões, shows, casas noturnas, enfim, sempre tive prazer, mesmo sem nunca crer. Amar sem crer, viver sem crer, viajar, festejar, o prazer existente que eu nunca tive coragem de acreditar, porém obrigado sou a crer no meu fim.
Isto me leva a mais uma reflexão, retornando ao ponto de partida desta manhã: não existem motivos para cometer o suicídio, porém ontem eu os tive. Saída digna para aquele que não crê na vida? Infelizmente, devo crer na morte!
Ao meio-dia fiz um pequeno almoço para ver se conseguia enrolar a minha vontade de possuir uma virgem, não saberia quanto tempo poderia aguentar, comi carne crua de filhote de ovelha, com sangue quente de um pequeno mamífero. Talvez o meu último banquete.
Sou obrigado, falta mais um deleite de minha alma. Cruel dúvida: satisfaço o desejo do destino o quanto antes, definhando-me e envelhecendo em alguns segundos, ou pratico o ato covarde e fugitivo da minha alma que creio eu não terá refúgio diverso do inferno para viver. Nisso acredito. Tenho certeza!
Dúvida definhante e agonizante. Viajei por todo o planeta em todos os séculos, passados e futuros, contudo não compreendo como nunca me deparei com um dilema, sempre realizei meus desejos mais íntimos, supérfluos e insignificantes que fossem. Agora não sei qual meu desejo.
Sei somente que realmente amo, e por esta razão não sei qual decisão tomar, a morte me parece tão certa, e com isto o amor me parece tão longe. O que realmente tenho certeza é que neste momento a morte parece tão banal ao lado de todo este amor.
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