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A saga do goleiro invicto (postado em 30/07/2010)

Durante o último verão recebi amigos em minha casa. Alguns, inclusive, vieram do interior. Sabe como é: casa no litoral = visitas no verão. Pelo menos, essas visitas rendem boas histórias.

Um desses meus amigos contou-me que ano passado conheceu aquele que se diz o único goleiro no mundo que jamais sofreu gol. Impossível!?

Disse-me ele que este improvável ser vive no anonimato, no interior de Santa Catarina. E que sua história só foi revelada porque ele, professor de educação física, perguntou aos seus alunos de dez anos quem tinha pai ou mãe que praticavam esportes.

Foi quando o seu aluno, José Gustavo, lhe disse que seu pai havia sido goleiro. Então, esse meu amigo pediu ao seu aluno que seu pai fosse até a escola contar como foi a experiência de um desportista e o bem que o esporte faz a saúde.

Desde então descobriu a história daquele que talvez seja o único goleiro do mundo que nunca tomou um gol sequer. Vou abrir aspas, para não assumir a responsabilidade por este relato:

“Disse que nasceu no que hoje é o estado de Tocantins. Quando tinha 16 anos seu pai assumiu a presidência do clube local e então obrigou o técnico do clube a colocar seu filho no time. O técnico até tentou utilizá-lo, colocando-o como atacante. Porém, a todo instante ele só queria saber de dominar a bola com as mãos e os braços. Foi todo um mês assim. Até que o técnico decidiu que ele deveria treinar como goleiro. O pai dele não gostou muito, mas até que no decorrer dos treinos mostrou uma certa desenvoltura, principalmente em ajudar no aquecimento do primeiro e segundo goleiros de seu time.
Nos dois primeiros anos de profissional, com então 16 e 17 anos, figurou como o goleiro mais jovem inscrito no campeonato goiano. No segundo ano, inclusive, ficou no banco de reservas em algumas partidas, mas não chegou a ser utilizado.
Infelizmente, no final daquele ano a vida lhe foi trágica, pois seus pais faleceram em um acidente de automóvel. Ele, como filho único, ficou órfão e o então técnico de seu time foi chamado para comandar o Vila Nova/GO. Penalizado com a situação do jovem goleiro o levou consigo para o clube. E, lá mesmo, ainda, sem atuar, sagrou-se campeão goiano dos anos de 1982 e 1984.
Aos 22 aos, em 1986, ele aguardava sua oportunidade. Treinava com afinco e previa um futuro promissor. Conversou com seu amigo e ex-técnico que usou de sua influência para indicá-lo ao São Paulo F.C. Apesar de nunca ter atuado em uma partida já tinha em seu currículo um bicampeonato goiano. Era um currículo promissor.
No São Paulo treinou como reserva do Gilmar e junto de Dario Pereira, Muller, Silas e Careca, sagrando-se, também como terceiro goleiro e sem ter entrado em campo, campeão brasileiro de 1986 e paulista dos anos de 1987 e 1989.
Em 1990 o São Paulo negociou alguns jogadores com o Internacional de Porto Alegre, e então ele mudou-se para a capital gaúcha. E com um currículo ainda melhor pensou que chegaria a sua oportunidade. Mas, na verdade, além dos títulos de campeão gaúcho dos anos de 1991 e 1992 e o da Copa do Brasil de 1992, onde contribuiu, novamente, fazendo parte do plantel, o que melhor lhe aconteceu em Porto Alegre foi conhecer sua esposa. Uma paraguaia que trazia produtos de seu país para vender no Brasil.
Então, apaixonados, acabaram por se casar. Ela que tinha um tio bastante influente, logo conseguiu que providenciassem uma cidadania paraguaia para seu marido, além de um clube de futebol no Paraguai para ele atuar como titular.
Em 1993 foram para o Paraguai. Lá ele se apresentou ao novo clube como um atleta bem sucedido, possuindo em seu currículo os títulos de bicampeão goiano, bicampeão paulista, bicampeão gaúcho, campeão da Copa do Brasil e campeão brasileiro. E o que é melhor: sem nunca ter sofrido um só gol.
Isso soou tão bem para os paraguaios, que quando os dirigentes de futebol daquele país souberam dessas informações, e cientes da sua cidadania paraguaia, obrigaram o técnico da seleção a lhe convocar. E deixaram claro que ele deveria ser o titular da próxima partida das eliminatórias para a copa do mundo de 1994.
Não conseguiu, assim, sequer estrear pelo seu clube. Apresentou-se na seleção e foi se preparar para sua partida de estréia no jogo Colômbia X Paraguai.
A seleção paraguaia não começou bem aquela partida. Teve algumas oportunidades de ataque no início do jogo, mas os primeiros vinte minutos foram totalmente dominados pelo adversário. Que chutou bola na trave, cabeceios rentes ao poste a alguns chutes para fora.
Então, num escanteio da seleção colombiana, quando ele saiu para defender a bola chocou-se no ar com um zagueiro, seu companheiro de equipe, e um atacante adversário, que quase lhe partiram em dois. A queda foi abrupta lhe causando lesões na coluna e no joelho direito. Portanto, teve que ser substituído na partida que terminou empatada em zero a zero.
As lesões o fizeram abandonar a carreira e depois de dois anos  retornou ao Brasil com a esposa e o filho, indo morar no interior de Santa Catarina, onde conseguiu emprego na indústria de aves. Desde então, o goleiro que conquistou títulos e jamais tomou um gol sequer em sua carreira, passou a trabalhar como empacotador de frango”.

Cá com meus botões: o único goleiro invicto do mundo, que tenho conhecimento, é agora um empacotador de frango. É ou não é ironia da vida?

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