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Mais um dia de primavera do ano de mil novecentos e noventa e seis. Aqui estou, sentado numa cadeira, de uma sala de aula, tentando adquirir alguns conhecimentos.

Terça-feira, aula de Literatura Catarinense. Grande discussão: a disciplina é Literatura Catarinense ou Literatura de Santa Catarina? Enorme discussão: existe Literatura Catarinense?

Neste belo dia de sol, que só Deus sabe até quando não vem a chuva, uma excelente aula da professora Maria Luiza, aula de apresentação de livros de autores catarinenses e o Alexandre já está uma hora falando de Luís Delfino dos Santos, aquele que nasceu no ano de 1834, e que não publicou nenhum livro. Deixou sua obra para que seu filho publicasse. Consta até que sua obra é de cerca de 3000 sonetos, mas somente 1000 foram publicados em livros. Além destes ainda tinha vários poemas longos que variavam de 20 a 2120 versos. Obra marcada pela influência da formação clássica e humanista, terminando a sua carreira pelos caminhos da poesia lírica.

“Á HELENA

 Com sombras deste lado e luz do lado oposto,

Este livro reflete a tua alma e o teu rosto;

Vem de ti esse livro, e é para ti somente,

Bem que não sei quem és; que às vezes me pareces

O anjo doce do amor, o casto anjo das preces;

Que outras vezes erguendo a cabeça imponente,

O olhar fulvo brandindo, e a voz austera e rouca …

Do arcanjo que caiu tens o orgulho insensato;

Que me pareces boa e me pareces louca;

Estrela, que se mira em límpido regato;

Vulcão, que tem rugido e chamas de cratera;

Céu, onde habita o raio e o sol da primavera;

Abismo, onde a alma cai em sombra, que a devora;

Que tens luz, que eu não sei se é do inferno, ou da aurora,

Se vem dos anjos bons ou dos anjos danados:

Ser superior, que esmaga Anteos desesperados,

Monstro, esfinge, colosso informe enfim que odeio

E que amo, e cujo casto e monstruoso seio

Tanto me faz querer, como fugir, e cujo

Atrativo é maior, quanto mais dele fujo;

Clarão, do qual em torno ando queimando as asas,

Sentindo bem que morro à luz com que me abrasas:

Foi por ti que escrevi este livro, indeciso,

Um pé fora outro dentro do paraíso.”

 

A aula vai se encaminhando muito bem, tirando as interrupções de uma bela moça, que infelizmente só sabe parar as apresentações e falar que Porto Alegre é a melhor cidade do mundo – não posso discordar, pois fazem alguns anos que estive em Porto Alegre. Mas se a cidade é tão maravilhosa assim, o quê ela faz em Florianópolis?

Acredito que seja nesse ponto que deveria partir uma análise sobre a literatura catarinense ou literatura de Santa Catarina. Por que todos que aqui estão não valorizam e não acreditam no que é nosso?

O sol brilha com sua mais intensa força sobre a ilha da Magia. O perfume das flores paira pelo ar e as mais belas mulheres passam a desabrochar.

O céu limpo e azulado, o sol refletindo com força e energia sobre as ondas borbulhantes que se chocam entre as pedras. Encontro e explosão da natureza única e bela.

Dia de praia. Calor intenso que só é atenuado pela leve brisa do vento sul, que desta vez passa devagar pela ilha.

Bela natureza, belas mulheres, bela ilha que cantada em prosa e verso reúne pessoas a discutir sobre a literatura de seu povo.

É primavera, são muitas as pessoas que estão sentadas aqui no Ponto Chic a discutir literatura, discutir política, enfim, discutir a vida.

Recém tinha se formado a Academia Catarinense de Letras, nos moldes da Brasileira, que foi nos moldes da Francesa, e já estavam todos discutindo sobre a Literatura Catarinense. Manoel José de Souza França, ardorosamente relatava os encantos mil da independência brasileira, e os diversos casos acontecidos aqui em Desterro, tinha ao seu lado o grande engenheiro militar Liberato Bittencourt e o nobre médico Duarte Paranhos Schuttel.

No canto do bar, Virgílio dos Reis Várzea, jornalista, político e cronista, nascido no Dia de Reis, explanava com grande maestria as suas aventuras marítimas, desde a infância, onde nasceu e viveu no norte da Ilha da Magia. Viajou pelo romantismo e o realismo através do marinhismo exacerbado existente em sua obra. Ouviam-no os seus colegas Tito Carvalho, Othon D’Eça e Lausimar Laus.

Tito Carvalho ocupava um lugar de destaque no bar, esbanjando um regionalismo característico de suas obras, o que lhe dava o título de introdutor do regionalismo em nossa literatura.

Othon D’Eça mostrava toda a sua sapiência de multi-facetas, com obras de relevantes qualidades.

E cada vez mais vinha chegando gente. Apareceu por lá Almiro Caldeira de Andrade, Lauro Junkes, Luís Delfino dos Santos, Alcides Bus, Hoyêdo de Gouvêa Lins, e com isso a conversa ficava mais animada.

Logo depois, Crispim Mira e o João, é, o Cruz e Sousa, que vinham do trabalho, pararam e, também, entraram na conversa sobre a literatura catarinense.

Existia, não existia, celeuma nunca resolvida. Então, os padres Eduardo Duarte Silva e Duarte Mendes de Sampaio, que defendiam ardorosamente a literatura catarinense, desafiaram dois colegas que acreditavam no contrário para uma partida de dominó. Manoel da Silva Mafra, um dos últimos a chegar, e Manoel José de Souza França aceitaram o desafio. E saíram todos do Ponto Chic e foram para frente da Catedral, onde, antes de iniciar a partida, receberam as bênçãos do Pe. José Artulino Besen.

A partida esteve sempre muito bem equilibrada do seu início até o fim, chegando a estar de 98 a 98, quem perdesse a próxima rodada perderia a disputa, a saída era do Pe. Eduardo Duarte Silva.

_ Ei, Roberto. Acorde! Dessa maneira você não vai conseguir passar nesta disciplina.

_ Me desculpe professora Maria Luiza.

_ Então fale para nós o que você acha sobre a discussão se existe ou não a literatura catarinense.

_ Não vai dar, a senhora me acordou bem no final da partida.

(Gilberto Rateke Junior)

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