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Eu particularmente sou contra o aborto. Mas existem casos que talvez relativize um pouco minha opinião. Talvez seja fácil para mim pensar dessa maneira. Afinal, não sou eu quem gestarei.

Hoje o STF julgará um caso de aborto de feto anencéfalo. Tal fato demonstra o quão inoperante é o nosso poder legislativo e o quanto ainda engatinhamos em democracia. Nossos governantes não gostam que a população reflita sobre os assuntos, debata e decida. Preferem nos fazer de marionetes. E muitos de nós cidadãos/eleitores preferimos permanecer assim. Por isso, de dois em dois anos, muitos vão as urnas, depositam seus votos e deixam nas mãos de outros o poder de decisão. Contudo, estes outros pouco ou nada fazem. Principalmente se comparado ao que recebem.

Mas se ao povo fosse permitido o debate saberia fazê-lo? Pois o que vejo no twitter (em relação ao julgamento de hoje sobre um caso de aborto) são pessoas rotulando e desmoralizando os debatedores.

Qual a dificuldade em expor a sua opinião sem querer desmoralizar a do outro? Por que precisa usar rótulos, até mesmo depreciativos, para quem pensa diferente? Por que usa termos errôneos mesmo tendo a ciência correta dos termos?

Desde que assisti a um episódio do seriado Boston Legal (Episódio 8 da quinta temporada), Roe (cujo título remete à lei que permite o aborto nos Estados Unidos), sempre que penso neste assunto lembro deste episódio. Especialmente o diálogo final. Não encontrei o vídeo porém transcrevo a seguir partes da legenda (pode ser conferida na íntegra, clicando aqui):

Neste episódio os advogados Alan e Shirley envolvem-se em uma discussão sobre aborto de adolescentes, quando uma jovem chinesa procura a ajuda da corte para reverter a decisão de sua mãe.


[…]

“Aqui está o problema,
de um lado vocę me diz que ela fez uma escolha errada 4 meses atrás,
e agora vocę me diz que ela tem maturidade
para fazer uma das escolhas mais importantes e com efeitos mais amplos
que qualquer pessoa poderia ter de tomar.
Juíza é assim que funciona em casos de aborto, năo negar isso.
E também năo vamos negar que vocę sabe menos do que a măe dela
do impacto que isso vai ter no resto da…
Eu estou considerando o impacto de uma adolescente ter que criar um filho…
Ela năo tem que criar o filho, para isso existe a adoçăo.
A lei dá a ela o direito de acabar com essa gravidez…
Só com o consentimento dos pais, o que ela năo tem.
A permissăo jurídica está, portanto…
Por favor, vamos pelo menos esperar a suprema corte repudiar Roe v. Wade.
Porque acabar com a diversăo deles?
-Sr. Shore! -Excelęncia.
Essa permissăo jurídica năo é razoável.
Até mesmo inconstitucional,
assim como o requerimento de consentimento dos pais.
A verdade é que a maioria das crianças nem contam para os pais.
Alguns procuram métodos perigosos,
outras simplesmente tęm o bebe ŕs escondidas.
-Sr. Shore… -Se realmente exaltarmos vida humana,
deveria ser apontado que morte associada ao parto de crianças
é dez vezes mais perigosa do que em casos de aborto.
Estamos falando da măe. A morte do feto é 100% certa.
Um feto năo é…
Hey, năo vou deixar vocęs entrarem nessa discussăo aqui.
Como vocę mesmo disse Sr. Shore,
năo vamos analisar a questăo da Suprema Corte.
Tudo que eu considero aqui é a maturidade e o melhor para a Kim.
Posso ser ouvida nessa caso, Excelęncia?
Por favor.
Essa é uma jovem que está apaixonada num dia
e no dia seguinte năo está mais.
Semana passada ela ia ser uma bióloga marinha
e essa manhă ela acordou querendo inventar jogos para computador.
Ela está só começando a se descobrir como todo adolescente…
E esse processo pode se acabar se ela virar uma măe adolescente.
Eu conheço os valores com que ela foi criada,
eu conheço os valores dela.
E eu sinto que ela vai crescer e ser uma pessoa que valoriza a vida.
E essa decisăo pode acabar com ela emocionalmente.
Vocę năo a conhece, eu conheço.
Posso responder, Excelęncia?
Tudo bem.
Eu sei que sou só uma criança
e sexo sem proteçăo é o pior exemplo de imaturidade ou de descuidado.
Mas também sei que minha família é pobre,
eu provavelmente teria de apelar a auxilio do governo
assim como cerca de 80% das măes adolescentes tęm de fazer.
Eu năo poderia continuar meus estudos,
eu năo poderia prover ŕ minha criança, dá-la uma boa educaçăo…
Eu sei as chances que me esperam,
eu sei das chances dessa criança se eu resolvesse dar ŕ luz.
E eu acredito que acabar com essa gravidez é o melhor para mim.
Isso é muito difícil.
Vocę me parece uma jovem consciente e madura.
Mas, mesmo assim, eu acho que as măes das adolescentes
as conhecem mais do que as próprias adolescentes.
Eu vou tirar um tempo para pensar nisso. Adiamos para as 14:00.
-Măe, por favor. -Vocę precisa me escutar, năo ele. ”

[…]

“Năo é que eu năo considere isso o direito dela, eu considero.
E ela parece esperta o suficiente para fazer tomar essa decisăo mas…
Mas?
Mas, para alguém que já exerceu esse direito,
essa menina me parece muito como alguém que
năo passou por dificuldades.
Vocę disse que ela foi criada na China?
Até 3 anos atrás. Por quę?
Entăo, o bebę é uma menina.
O quę? Năo seja ridículo.
Shirley, assassinatos de meninas quando bebęs
vęm acontecendo na China fazem mais de 1000 anos.
-Na China sim, mas… -Aqui também.
Eu năo acredito. Nos EUA?
Eu posso te mostrar os estudos.
Desde que a política de 1 filho por família
foi introduzida na China em 1980,
a seleçăo de crianças por sexo aumentou drasticamente.
Eles querem meninos.
Ultra-sons năo săo coisas boas para bebęs chineses do sexo feminino.”

[…]

“Sente-se Kim.
Sua măe disse para Alan na corte
que ele năo tinha idéia do que realmente estava acontecendo,
o que ela quis dizer com isso?
Eu năo sei,
ela estava provavelmente sendo um pouco irracional, măes săo assim.
Năo me pareceu ser isso.
Por que vocę está querendo abortar Kim?
Eu acho que fui bem clara nisso.
Clara sim, verdadeira eu duvido.
Shirley, o que está acontecendo?
Vocę se referiu ao bebę usando “ela”. É uma menina?
Eu năo sei, só estava dizendo ela no lugar de ele ou isso.
Isso importa?
Vocę que me diga.
Shirley, a năo ser que seja uma pegadinha năo estou entendendo nada.
A cultura da Kim tem uma preferęncia por bebęs do sexo masculino,
o que sua măe sabe e năo está nos dizendo,
pelo menos năo diretamente,
é que vocę está abortando esse bebę porque é uma menina.
Năo é verdade, Kim?
Eu te fiz uma pergunta.
A razăo pela qual quero abortar năo tem relevância jurídica.
Eu suspeito que se a clínica descobrir
que isso se trata de seleçăo de sexo eles năo…
Năo se trata disso.
Eu sou uma adolescente, eu simplesmente năo sirvo para ser măe.
Meus motivos pessoais năo săo da sua conta.
Vamos nos atrasar.
Sra. Shu, eu năo tenho como conhecer a sua filha tăo bem como vocę,
mas como eu disse, eu năo posso deixar de ser pressionada
pela aparente certeza dela em tomar essa decisăo.
E como juíza,
como mulher eu simplesmente năo posso impor a ela o dever de carregar…
-Excelęncia. -Shirley.
Além de ser advogada da Kim eu também sou…
Bem… uma mulher.
Obrigado Sra. Schmidt, eu suspeitava, mas, vai lá se saber…
É a minha opiniăo,
que minha cliente quer acabar com essa gravidez
porque o bebę que ela carrega é uma menina.
Isso năo é verdade.
É verdade, Sra. Shu?
-Na questăo de saúde pública… -Essa năo é sua tarefa.
leis abortivas foram feitas para liberar as mulheres, năo erradicá-las.
Sra. Schmidt eu acho que vocę está passando dos limites.
Excelęncia, a seleçăo sexual pelo menos por esse motivo,
deveria mudar o entendimento dessa corte.
Essa mulher está demitida como minha advogada.
Eu vou dizer uma coisa que talvez só uma măe possa dizer,
sente-se e fique calada.
Na Índia, quase 500 mil fetos femininos săo abortados todo ano
porque o sexo é considerado inferior.
Na China já virou uma epidemia, e de acordo com nosso Censo,
as crianças nascidas nos EUA, de pais chineses tendem a ser meninos.
É infanticídio feminino, é sexista, vil
e eu năo vou ser parte disso…
Eu năo vou ficar calada
enquanto deixamos as leis abortivas serem exploradas,
para conseguir um holocausto das mulheres,
se isso me levar ŕ uma sançăo por trair minha cliente
ou violar um privilégio…
que seja.
E o que vocę propőe que façamos, sra. Schmidt?
Que adicionemos ŕ nossa lei atual sobre aborto
o direito do governo de investigar por que
uma mulher quer acabar com a gravidez?
Vocę realmente quer isso?
Sujeitar jovens grávidas a interrogaçăo e descoberta?
Eu admiro seu instinto moral aqui,
mas é logisticamente impossível.
Eu estou convencida que a menor é madura o suficiente
para tomar a decisăo e a autorizaçăo está concedida.
Năo acredito.”

[…]

“Ela abortou?
Eu năo sei.
Sabe Denny, eu sou muito a favor da escolha.
Acho que é um direito da mulher,
mas de um ponto de vista científico e humano,
é difícil argumentar que a vida năo se inicie na concepçăo.
Mesmo que seja ainda um organismo,
eu acho que eu estou desesperado para que essa lei năo caia,
talvez para reafirmar minha própria posiçăo moral.
De quantos procedimentos desse tipo vocę participou?
Dois.
E eles te assombram?
Vamos dizer que eles tęm um certo peso.
Vocę realmente acha que a lei Roe vai cair?
Eu năo sei.
Sabe, Sarah Pallin fala do quăo orgulhosa ela está
de que a filha adolescente dela escolheu ter o bebę, mas,
a verdade é que se a Sarah tivesse que escolher,
a filha dela năo teria nenhuma opçăo.
Se chegar ŕ Suprema Corte, provavelmente a lei irá cair.
Provavelmente. Mas, eles dizem que serăo duros com o crime.
E o que isso tem a ver?
Bem, é provável que a lei pode ter diminuído o número de crimes.
– Como vocę sabe? – Bem, a lei é de 70,
e os estudos mostram que as crianças que năo nasceram depois da lei,
provavelmente viriam de famílias pobres ou măes solteiras,
as próprias crianças cresceriam com propensăo a serem criminosos.
Desde que a lei entrou em vigor,
muitas dessas crianças foram abortadas.
Os criminosos dos anos 90 năo estavam por aí, porque,
năo nasceram nos anos 70.
– Vocę está inventando isso. – Năo estou.
Há um livro “Freakonomics”, leia.
– Vocę ainda está năo-lendo? – Só jornais.
Isso é anti-americano.
Entăo, legalizar o aborto pode diminuir a criminalidade?
Uau.
Isso deixa vocę mais confortável com relaçăo aos seus abortos?
Năo.”

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