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Certa vez escreveu o poeta Fernando Pessoa:

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro de um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”

Ontem, pelo Brasil, milhares de pessoas foram às ruas. Cada qual com sua verdade!

Ao que consta em algumas capitais houveram verdades contadas com violência, mas aqui em #Florianópolis uma multidão foi às ruas manifestar pacificamente. Pessoas vindas de diversas partes da cidade se encontraram no único ponto de ligação entre a ilha e o continente!

Ao caminhar pelo centro da cidade antes das 17h muitas lojas já estavam fechadas e as que se encontravam abertas, aos poucos, encerravam seu expediente. Assim, apesar da aparente preparação da população para o manifesto que iria ocorrer, o fechamento das pontes pouco depois das 18h deixou alguns motoristas e passageiros presos no trânsito.

Curioso é que quando a imprensa reclamou do tempo que as pontes ficaram fechadas pouco ou nada se ouviu falar de que o absurdo maior é que as duas ligações ilha-continente ficam lado a lado. Não há outra ligação em outro ponto da ilha. E o que é pior, não há alternativa de transportes, como o marítimo, até mesmo de balsas para carros.

Mas vamos retomar o início das manifestações.

Na concentração, um embate deixou os ânimos um pouco tensos em frente ao Terminal Central. O motivo? Maioria dos manifestantes não concordava com a presença de manifestantes com bandeiras partidárias. O grito era de: “sem partido”.

O que no meu ponto de vista já gera um contrassenso. Afinal, como pode um espaço democrático excluir manifestações democráticas? Não podem pessoas filiadas a partidos políticos também estarem descontentes com os políticos que dizem nos representar? Além do mais, no Brasil, nenhuma pessoa pode se candidatar sem estar filiada a um partido político (o que eu particularmente discordo, mas está previsto em lei).

Então como se quer a mudança no país?

Menos mal que os manifestantes partidários seguiram para um lado enquanto os demais se dirigiram para a Assembleia Legislativa do Estado.

Foto: Gilberto Rateke Jr.

Foto: Gilberto Rateke Jr.

É de se registrar que mesmo com o frio (14o.C) e chuva (em alguns momentos, muita chuva), uma multidão se fez presente nas ruas.

Foto: Gilberto Rateke Jr.

Foto: Gilberto Rateke Jr.

Mas o que reivindicavam?Alguns (e talvez a maioria) o passe livre (será que, pelo menos, não deveria haver diminuição do preço da passagem em Florianópolis, haja vista que o governo federal zerou o Pis e o Cofins das empresas de transporte público?), um bom grupo, com promotores públicos presentes, manifestava contra a #PEC37. Havia, também, os profissionais de diversas áreas da saúde, que carregavam cartazes contra o #atomédico. Todos estes caminhavam lado a lado com os que criticavam o projeto de lei sobre “#curagay” e com tantos outros que bradavam contra a corrupção. Até a Ponte Hercílio Luz mereceu uma faixa com os dizeres: “cartão postal da corrupção”!

Foto: Gilberto Rateke Jr.

Foto: Gilberto Rateke Jr.

No trajeto das Avenidas Mauro Ramos e Beira Mar Norte, muitas pessoas, em seus apartamentos apoiavam a manifestação, ora acenando, ora piscando as luzes de suas residências.

Eram pessoas de todas as idades! E quando conseguimos avistar a ponte Colombo Salles ela já estava tomada pela população.

Foto Gilberto Rateke Jr.

Foto Gilberto Rateke Jr.

Lembro que ainda no TICEN, lá na “concentração”, quando encontrei um amigo e conversávamos sobre o motivo da manifestação ele me questionou: “E tu estás aqui por qual razão?”. Respondi que deveríamos exigir dos políticos as reformas tributária, política e administrativa. Ele de pronto me disse: “E tu achas que a maioria dessas pessoas sabe o que é isso?”. Ora, essas reformas ajudariam e muito a dar conta de algumas dessas exigências, inclusive o passe livre.

Dispensarei de falar sobre a dificuldade em liberar as pontes. Pois isto foi um ponto pequeno dentro da magnitude de toda a manifestação. Até por que nossa imprensa já valorizou demais o episódio. Mas nem por isso deve deixar de gerar reflexão sobre o ocorrido.

E o futuro destas manifestações?

O Movimento Passe Livre, em São Paulo, pelo que li ontem, afirmou que não organizará novas passeatas. E se o movimento é apartidário, quem se responsabilizará em organizar as manifestações pelo Brasil?

Terá sido em vão todas essas manifestações? Ou a sociedade que está manifestando conseguirá se organizar e pautar o movimento? Haverá interesse para isso?

Foi muito bom participar deste momento democrático. Afinal, em nosso país as pessoas estão acostumadas a pensar que democracia é apenas votar de dois em dois anos. Mas há muitos espaços democráticos a serem preenchidos. Como os conselhos municipais, as câmaras de vereadores, assembleias, congresso e as próprias ruas! (gostaria muito de participar ou criar um grupo/movimento de pessoas para acompanhar as votações e o que ocorre nestes conselhos e espaços. Será possível?)

Mas é preciso estar alerta, pois apesar do povo querer mudanças, elas não podem vir por #golpe, seja ele qual for, de direita, de esquerda, militar ou até mesmo midiático. Por isso, nossos políticos precisam parar de conchavos, trabalhar e votar as reformas que a sociedade brasileira tanto precisa!

Esta é a verdade que eu participei e vi ontem. E você, qual a tua verdade?

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